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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A mão esquerda de Deus


"Pois assim como Deus em sua natureza é incomensurável, incompreensível
e infinito, ele é intolerável para a natureza humana." (Martinho Lutero)


Dia desses, navegando pela Internet, encontrei um texto no melhor estilo Richard Dawkins de argumentação tosca. Para dizer a verdade, o texto não tem nenhuma argumentação: é apenas uma coletânea de citações sobre os massacres do Antigo Testamento, mas que mal escondem o escândalo do autor diante de tanta morte e destruição. É impossível que esses textos sejam inspirados por Deus, conclui o neo-ateu enrustido. Quod erat demonstrandum!

O que nosso brilhante autor esquece é que Deus não é um serzinho à nossa imagem e semelhança. Deus é infinito, o homem é finito: “finito” e “infinito” não são termos simétricos [1]. A bondade de Deus não é a nossa bondade e, por isso, Deus não pode ser “condenado” pelos mesmos padrões morais que julgam as ações humanas. Se tudo foi criado do nada e de graça por Deus, o que impede que Ele jogue tudo de novo no nada? A criação só existe enquanto Deus quer e como Ele quer, e não por acaso, um dos atributos divinos mais enfatizados pelo Antigo Testamento é o caráter "terrível" de Iavé:

“E todos os moradores da terra são reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera no exército do céu e entre os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?”  (Daniel 4:35)

O carola moralista pode ficar espantado com isso e até tomar as dores do aspirante a Dawkins mencionado no início. Como Deus pode ser esse tirano que age arbitrariamente? Como alguém pode amar um Deus que seja mais assustador que o diabo? Acredito que a resposta (para escândalo do carola) está em Shiva, o “destruidor dos mundos” na trimurti hindu:


“Shiva é um destruidor e adora os locais da cremação. Mas o que é que Ele destrói? Não apenas os céus e a terra no fechar de cada ciclo do mundo, mas os grilhões que amarram cada alma individual. Onde e o que é o campo da cremação? Não é o local onde os nossos corpos terrenos são cremados, mas os corações dos Seus amantes, depostos, desperdiçados e desolados. O local onde o ego é destruído significa o estado onde a ilusão e as acções são incineradas: isto é o crematório, o campo da cremação onde Sri Natarâja dança, e daí Ele é chamado Sudalaiyâdi, Dançarino dos campos crematórios. (Ananda Coomaraswamy, A dança de Shiva)

Shiva é o equivalente hindu do “Deus terrível” do Antigo Testamento e, assim como ele, está associado à morte e à destruição. Na dança de Shiva, tudo é destruído, mas esse aspecto negativo é relativo apenas ao nosso ponto de vista limitado. Do lado de lá, há apenas luz e êxtase, pois Shiva e Vishnu, o mantenedor dos mundos, são um só. De fato, a dança de Shiva é também repleta de misericórdia, por nela são igualmente destruídos todos os laços que nos prendem a esse mundo. Da mesma forma, Deus ceifa aquilo que ele mesmo deu para destruir nosso apego às coisas, para que elas não se transformem em “deuses” para nós.

Se Deus dispõe da criação conforme Ele quer, nem por isso Suas ações são desprovidas de bondade: apenas nós que às vezes não conseguimos compreendê-la. Por isso, aquele que quer realmente amar a Deus acima de todas as coisas deve ir além do moralismo carola. Seu exemplo deve ser o de Jó, que após ter toda a sua vida destruída com a permissão de Deus, ainda pôde dizer: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor o deu, o Senhor o tirou. Bendito seja o nome do Senhor.” (Jó 1:20).

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[1] "Podemos fazer compreender essa assimetria por uma observação de aplicação corrente, que provém simplesmente da lógica comum: se considerarmos um atributo ou uma qualidade qualquer, podemos dividir todas as coisas possíveis em dois grupos, que são, de um lado, o das coisas que possuem esta qualidade, e de outro as que não a possuem; mas, enquanto que o primeiro grupo se acha assim definido e determinado positivamente, o segundo, que só está caracterizado de modo puramente negativo, não está por isso limitado e é verdadeiramente indefinido; não existe assim simetria, nem medida comum entre estes dois grupos, que assim não constituem realmente uma divisão binária, e cuja distinção só vale do ponto de vista especial da qualidade tomada como ponto de partida, pois o segundo grupo não possui nenhuma homogeneidade e pode compreender coisas que não tem nada em comum entre si, o que não impede que esta divisão seja válida sob o aspecto considerado." (René Guénon, O homem e seu devir segundo o vedanta)

sábado, 11 de julho de 2015

A Grande Obra de José

As ciências herméticas tem como patrono a figura mitológica de Hermes, o mensageiro dos deuses, conhecido entre os romanos como Mercúrio. Representado com asas nos pés, símbolo de sua agilidade e flexibilidade, Hermes é aquele que faz a ligação entre os vários planos da realidade, manifestando para os homens as verdades transcendentes.



Por isso, Hermes é associado também aos oniromantes, aos videntes e a todos aqueles que são os intérpretes da vontade divina, como José, um dos doze filhos do patriarca Jacó. Porém, os paralelos entre José e Hermes não param por aí. Por isso, nesse post, pretendo analisar a narrativa da vida de José a partir do simbolismo astrológico e alquímico. 

Invejado por ser o filho predileto de Jacó, José foi vendido pelos próprios irmãos como escravo. Temos aqui a fase do nigredo, representado simbolicamente por Saturno, o deus que foi deposto de seu domínio e aprisionado no Tártaro. Da mesma forma, antes de ser vendido, José foi lançado numa cisterna e perdeu a túnica multicolorida que tinha ganhado de seu pai, o que remete ao símbolo bíblico do arco-íris como aliança entre o Céu e a Terra. 


Como o acordo entre Céu e Terra foi perdido, é necessário reconquistá-lo mediante a realização da Obra hermética. Entretanto, ela deve começar em Saturno, o chumbo que é o ponto de partida para a produção do ouro. Assim como o chumbo representa o estado caótico da alma humana e as limitações decorrentes disso, como escravo, José tinha suas possibilidades restritas, mas é nessa condição que ele começará sua ascensão, ao ser vendido para Potifar.

Na casa desse oficial do faraó, José acaba se tornando um servo de destaque, responsável por administrar todas as posses de seu senhor. Segundo a Bíblia (Gn 39:5), Deus abençoou a casa de Potifar durante todo esse período, o que mostra o aparecimento de uma outra etapa da Obra, representada por Júpiter, o senhor dos deuses, que manifesta sua benevolência trazendo a prosperidade e a fecundidade após a putrefação saturnina.

Entretanto, com todo o sucesso que conquistou na casa de Potifar, José acaba sendo alvo das investidas da mulher de seu senhor, que tenta seduzi-lo. É o aparecimento de Vênus, a sedução oferecida pelas bênçãos divinas da fase anterior. Como os valores são ambíguos, eles podem também ser um grande obstáculo para o desenvolvimento espiritual, como comprova o episódio do Jovem Rico, narrado no Evangelho. 

José poderia ter cedido aos encantos da esposa de Potifar e traído a confiança de seu senhor, mas resiste até o ponto de ter de fugir (literalmente) das investidas da sedutora. Nesse caso, Vênus é contrabalançada por Marte, a virilidade espiritual do homem que luta contra si mesmo, para destruir nele o apego venusino às dádivas espirituais. 

Essa atitude marcial tem como resultado a criação de uma espécie de indiferença em relação às coisas, já que elas deixam de ser desejadas em si mesmas. Nesse caso, o homem se torna receptivo à vontade divina, e pode aceitar com tranquilidade mesmo as situações mais desagradáveis. É a manifestação da Lua, a receptividade pura à luz solar, simbolizada pela ida de José à prisão. De fato, é nessa situação aparentemente ruim que se manifesta nele, pela primeira vez, o dom da interpretação dos sonhos. 

Tendo se mostrado dócil à vontade divina, José ganha não só a capacidade de interpretar sonhos, mas também o cargo de governador do Egito, que simboliza o ponto culminante da Obra hermética: a produção do ouro. Nesse estágio, passado todo o processo, o alquimista ressuscita, regressando na plena consciência de seu corpo e portando em seu interior a essência da Grande Obra. De forma análoga, José não só sai da prisão para ser exaltado como governador, mas também recebe o nome simbólico de Zafenate Paneia, que significa "Deus disse: ele está vivo".

Assim, completa-se o processo de balanceamento das forças: da mesma maneira que Júpiter equilibra Saturno e Marte balanceia Vênus, a ação conjunta da receptividade lunar e da realeza solar geram juntas o elixir da longa vida, o manancial interior capaz de alimentar não só o adepto, mas também aqueles que estão ao seu redor: "E de todas as terras vinham ao Egito, para comprar de José; porquanto a fome prevaleceu em todas as terras." (Gn 41:57). Mais uma vez se confirma a analogia entre José e Hermes, pois a síntese entre Sol e Lua só é possível através do Mercúrio, que porta em si a resolução das forças planetárias e, por isso, serve de meio para a condução da Obra.




terça-feira, 23 de junho de 2015

Pasolini, Nicodemus e a Morte


Faz alguns dias em que estava matutando sobre a resposta do Reverendo Augusto Nicodemus sobre a dessacralização da cruz e dos símbolos cristãos . E tive um insight na sexta sobre um paralelo entre protestantismo e o filme Medeia, do diretor italiano, Pier Paolo Pasolini. Como não tive pressa, a Morte, esta confreira letal e certeira, publicou um interessante post sobre o tema. O que amplia meu interesse em complementá-lo, talvez como um desvaneio simbólico ou uma percepção completamente  lunática do assunto.
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Jasão

Ao ver o filme temos um dos protagonistas Jasão (Giuseppe Gentile), aquele que nasce criado por um centauro, elo simbólico que carrega em si o discurso racional e mito poético. Quando Jasão o vê em forma humana representa o racional, o descritivo e o analítico, quando em forma mítica de Centauro (meio homem e meio cavalo), a fala carregada de símbolos, mitos e um certo tom místico. Quando pequeno Jasão ouve os discursos racionais do Centauro e logo lhe chega o sono, a medida que cresce só lhe interessa o discurso racional, e só enxerga no centauro o seu lado homem. O mítico e simbólico não lhe cabem mais.   


Centauro                               Homem

Ao retornar ao reino que seu tio roubou de seu pai,  Jasão requer seu quinhão, seu reino que lhe é justo por direito hereditário, porém seu tio lhe incita a troca do Velocino de Ouro pelo reino. Para isto,  Jason segue ao  Reino de Iolcos, onde conquista o  Velocino de Ouro e seduz, ou melhor,  toma para si, a sacerdotisa Medeia (Maria Callas),  que facilita sua fuga matando seu irmão rei para fugir com o amado. Ao chegar em seu reino, o Velocino de Ouro não tem mais o seu poder, ele só opera com eficácia e poder onde lhe é sagrado, na terra de Iolcos, onde a linguagem e a mística rege seu povo. Portanto o Tio não lhe reconhece o poder, com este simples amuleto ineficaz e não lhe cumpre a palavra para restaurar o reino de Corinto. Com Medeia se muda para Tessália, onde esta se aflige e se desespera,  pois percebe que não há centro, não existe um eixo, um sentido místico e religioso civilizacional, e logo profetiza vai ruir, não se pode construir a civilização sem este centro (dharma, eixo, lei) simbólico. Com certa altivez Jason e seus amigos zombam e riem desta cena de aflição e clamor de Medeia. Entretanto ele se entrega a seu amor e lhe faz três filhos. Com passar dos tempos Medeia perde seu encanto de sacerdotisa, sua linguagem, se torna racional, o sentido místico e religioso que eram sedutores se resignam a meras lembranças. Jasão se desprende dela, a abandona e vive alegre e sorrateiro numa roda de amigos, ou seja num círculo fechado, apenas atento a um ponto externo, o poder conferido pelo Rei, o seu quinhão. Este, o Rei, lhe promete sua filha para casamento. Antes do casamento, Jasão tem uma recaída, se deita e se deleita com os encantos de Medeia, e se encanta com seus rebentos, os filhos desta união. Traída Medeia mata a futura esposa, o Tio de Jasão e seus filhos em comum. A trama choca e horroriza qualquer mentalidade moderna , especialmente feminina, que se escandaliza com o fato da mãe que mata seus filhos, aliás isto é a marca ou a fama desta tragédia grega na modernidade.

E o Nicodemus?

Por analogias diremos que Nicodemus é o Jasão,  que cresce  no protestantismo entre um mundo onde o centauro é muito mais homem que centauro. Mas que no seu cerne, e no fundo ainda há uma semente de centauro que por vezes se encontra sufocada. Dos mitos simbólicos bíblicos e da mística de Lutero (Centauro), aos discurso analítico e sistemático das Institutas de Calvino (Homem), dos frutos como a desmitologização por Rudolf Bultmann(nada mais homem que isto). Claro que dentro de uma vertente que sente-se feliz em reafirmar fundamentalista, Nicodemus, é alheio à Bultman na sua completa desmitologização da Bíblia, pois sempre ainda existe os encantos do Centauro e de Medeia, mas na prática o modus vivendi, a forma de viver ecclesea é o de Homem, muito mais perto de seu desafeto Bultman, daí a dessacralização alardeada pela nossa querida confreira morte. 



Como Guenão e outros perenealistas alardearam o fruto do protestantismo é a secularização, onde o Centauro não tem vez, e nem sua parte homem o tem. Assim os discursos de Nicodemus parecem tão retrógrados à esta platéia moderna, que não se importa nem um pouco com os encantos de Medéia. Com isto o Velocino de Ouro não faz milagre, seu poder, sua mística são revelados somente àqueles que o reconhecem.


O mundo moderno é como Tessália constituído por três lemas imaginários de forma absoluta (igualdade, liberdade e fraternidade), que engendram ideologias vazias de significado metafísicos e simbólicos, quando destituídos de sua unidade, mas enraizados em uma materialidade efêmera. Então não existe eixo, dharma, nem centro, nem lei, logo este mundo vai ruir. Mas o nosso Jasão análogo adora construir com seus amigos neste mundo sem sentido simbólico e cheio de chatíssimas regras morais e justificativas racionalistas de fé. Realmente pueril como as risadas de Jasão e seus amigos ou quando ele brinca de roda no filme Medeia. Mas eles amam este mundo moderno, as suas benesses e por isto tomam posturas para agradar aqueles que só enxergam homens e não centauros. Estes que estão no poder são como o Tio de Jasão, o rei que oferece lugar de honra neste reino terreno,  desde que você abandone Medeia e qualquer ponte com o mundo simbólico, antigo e tradicional. Afinal o que  impera no reino atual é o físico, o mortal e o racional. Portanto não quero esgotar, nem muito menos matar neste assunto o uso de uma obra tão simbolicamente forte como este filme de Pasolini. Mas cada vez que Jasão se ilude com o reino, morre mais um filho espiritual seu com Medéia...


quinta-feira, 28 de maio de 2015

O esoterismo de Clarice Lispector



Apesar da banalização promovida pela tietagem de fãs deslumbrados, as obras de Clarice Lispector apresentam uma riqueza inegável, o que permitiu que fossem analisadas das mais variadas formas, inclusive a partir do esoterismo e do simbolismo religioso. De fato, é bem conhecida a presença de símbolos e temas ligados ao universo do sagrado nos textos da escritora, e uma das obras que apresenta mais claramente essa preocupação é o romance "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", de 1969.

O enredo do livro é relativamente simples: narra a história do envolvimento amoroso entre Loreley (Lóri), a personagem principal, e Ulisses, bem como o processo de amadurecimento pelo qual a protagonista passa até poder se entregar definitivamente a seu amado. No entanto, para além dessa simples história de amor, percebe-se em Lóri a tentativa de se comunicar com o que chama de "o Deus", o que mostra uma preocupação mais profunda do que o mero desejo sexual por Ulisses. Ao mesmo tempo, existe a presença marcante de símbolos iniciáticos ao longo da narrativa, como se pode observar, por exemplo, no episódio do banho de mar de Lóri:

"Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização da Natureza. [...]
Vai entrando. A água salgadíssima é de um frio que lhe arrepia e agride em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal — a alegria é uma fatalidade — já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seu mais adormecido sono secular."

Toda a cena é representada como se fosse um "batismo", anunciando uma mudança radical no estatuto da personagem. Nesse caso, a menção ao "despertar" reforça ainda mais a ideia de transformação comunicada pelo batismo no mar: se as águas, no simbolismo tradicional das iniciações, simbolizam a dissolução das formas (a fim de que seja engendrada uma nova existência no iniciado), o despertar indica o fim do sono da vida vulgar, do qual o iniciado acorda para uma existência sobre-humana [1].

Mais tarde, comentando esse acontecimento com Ulisses, Lóri destaca que o que vivenciou é algo inexpressável, o que mostra um paralelo com o papel fundamental do segredo na iniciação, uma vez que o conhecimento comunicado por ela só pode ser realizado mediante uma vivência interior e, por isso, nunca pode ser totalmente verbalizado:

"— Um dia eu fui de madrugada ao mar sozinha, não tinha ninguém na praia, eu entrei na água, só tinha um cachorro preto mas longe de mim!
Ele olhou-a com atenção, a princípio como se não entendesse que significado invulgar poderia haver naquela declaração emocionada. Afinal como se tivesse compreendido, perguntou devagar:
— Gostou?
— Gostei, respondeu com humildade, e de vergonha seus olhos se encheram de lágrimas que não caíam, só faziam com que parecessem duas poças plenas. Não, corrigiu-se depois, procurando o termo exato, não é que tenha gostado. É outra coisa.
— Melhor ou pior que gostar?
— Foi tão diferente que não posso comparar."

A presença desses símbolos iniciáticos nos permite reinterpretar o sentido da própria história de amor entre Ulisses e Lóri. De fato, a busca de Loreley por se aperfeiçoar até a entrega total a Ulisses é análoga à busca empreendida pelo herói nas chamadas "viagens iniciáticas", narrativas que dramatizam o esforço do adepto para transcender o estado humano. Em algumas dessas narrativas, apresenta-se a figura da "mulher divina", símbolo do conhecimento transcendente e da imortalidade [2], da qual Ulisses representa uma espécie de versão masculina. Nesse caso, a busca de Lóri por se fundir em Ulisses simboliza a transição para um outro estado de existência, pela conquista da divinização:

"Já duas semanas se haviam passado e Lóri sentia às vezes uma saudade tão grande que era como uma fome. Só passaria quando ela comesse a presença de Ulisses. Mas às vezes a saudade era tão profunda que a presença, calculava ela, seria pouco; ela quereria absorver Ulisses todo. Essa vontade dela ser de Ulisses e de Ulisses ser dela para uma unificação inteira era um dos sentimentos mais urgentes que tivera na vida."

Para finalizar, o fato de que o amante de Lóri se chame Ulisses também é bastante significativo, uma vez que a narrativa da Odisséia pode também ser interpretada como uma "viagem iniciática" [3]. Além disso, a presença de um antepassado mítico ou divindade que transmite a doutrina esotérica, tal como Ulisses no romance de Clarice Lispector é responsável por educar Lóri em sua jornada, é outra característica dos ritos de iniciação: "a 'morte' e a 'ressurreição' iniciatórias representam um processo religioso através do qual o iniciado se torna outro, modelado de acordo com o modelo revelado por deuses ou antepassados míticos.” (Mircea Eliade, Origens. Lisboa: Edições 70, 1989). Dessa forma, a fusão em Ulisses, consumada na união sexual entre ele e Lóri ao final do livro [4], simboliza o objetivo mesmo da iniciação: unir-se ao Absoluto, mediante a realização da "Identidade Suprema".


[1] Esse ensinamento aparece de forma clara no budismo: aquele que atinge a Iluminação ou Grande Despertar (maha-sambodhi) torna-se um Buda, nome que não indica uma personalidade individual, mas um estado supra-humano.

[2] Nas novelas de cavalaria, a "mulher divina" era representada pela dama a quem o cavaleiro devotava sua aventura: "A dama a quem o cavaleiro jura uma fidelidade incondicional e a quem se vota também com frequência o Cruzado, a dama que conduz à purificação, que o cavaleiro considera como sua recompensa e que o tornará imortal quando morrer por ela, é essencialmente [...] uma figuração para a 'Santa Sabedoria', uma encarnação, mais ou menos precisa como tal, da 'mulher transcendente' ou 'divina', do poder de uma espiritualidade transfiguradora e de uma vida que não se mistura com a morte." (Julius Evola, Revolta contra o mundo moderno. Lisboa: Dom Quixote, 1989).

[3] Plotino, por exemplo, vê no retorno de Ulisses à Ítaca um símbolo da ascensão da alma até o Uno (Enéadas I, 6, 8, 15-25)

[4] O uso do simbolismo erótico para designar a união com o divino é lugar-comum na literatura mística. A propósito, é digno de nota que Ulisses seja identificado com Deus em certo momento da narrativa: "Enquanto estivesse viva teria que rezar, o que não queria mais, ou então falar com os humanos que respondiam e representavam talvez Deus. Ulisses sobretudo."